
De todos os feitos espetaculares de Oscar Schmidt, o segundo maior pontuador da história do basquete, com 49 737 pontos, atrás apenas do americano LeBron James, dono de 53 327, cabe ressaltar o fato de ter visto a revolução antes da hora, como Arquimedes a exclamar “eureca”. A linha de arremesso de três pontos só foi estabelecida, na NBA americana, na temporada de 1979/1980. A FIBA, que coordena as disputas olímpicas, só a definiu como regra a partir de 1984. Muito antes, quando só valiam os dois pontos habituais, Oscar tratou de treinar, treinar, de longas distâncias. Era um recurso simples: se conseguia acertar de tão longe, chegando mais perto a precisão estaria garantida.
E então, quando os chuás lá de trás (7,24 metros de distância na NBA; 6,75 metros de acordo com a FIBA) começaram a despontar, quem é que mostrou as caras, acima de tudo e de todos? Oscar. Foi assim na histórica final dos Jogos Panamericanos de 1987, em Indianápolis. O Brasil venceu os Estados Unidos por 120 a 115, de virada – perdia por 14 pontos de diferença no intervalo. Os americanos, é verdade, não levaram para a quadra os grandes nomes da NBA, mas pouco importa, e também para eles aquela partida representou ponto de virada. O motivo: como sempre, o quinteto dos Estados Unidos imaginava poder acelerar e vencer. Marcavam dois e lá vinha Oscar, matemática na cabeça, cravando três. Ele marcou 46 pontos, dos quais 21 de três, em sete cestas. O basquete viraria de cabeça para baixo, porque até então os três pontos eram tratados como invencionice, algo para animar partias no final de cada quarto de hora, ou a derradeira alternativa para um time em desvantagem. “Não vou preparar jogadas baseadas em arremessos de 7 metros de distância”, disse então o técnico do Phoenix Suns, John MacLeod, naquele tempo. “É uma forma muito chata de jogar basquete.” Como no beisebol, contudo, a aferição e a divulgação de estatísticas cada vez mais apuradas derrubaram verdades preestabelecidas. As equipes passaram a perceber o evidente aumento de eficiência ao obter 1 ponto a mais a cada ataque. Na NBA, de menos de três tentativas por jogo no primeiro ano da nova regra, a quantidade chegou nesta temporada à média de 24 arremessos. Louve-se, portanto, a faísca de Oscar, embora não tenha sido o único, na antessala de nomes como Stephen Curry, o gênio dessa modalidade de pontuação.
E qual era o segredo de Oscar, em tempo de tecnologia e ciência de dados ainda escassa? Em entrevista a Alexandre Salvador para as Páginas Amarelas de VEJA, em 2013, ele resumiu a façanha com a simplicidade dos campeões. Instado a comentar o apelido de “mão santa”, disparou, a seu feitio, sempre direto: “Mão santa é o caramba! É mão treinada! Acho que ninguém treinou tanto quanto eu treinei. Você nunca pode achar que foi o suficiente. se parar, o negócio regride. Além dos dois treinos por dia, dava mais 1 000 arremessos, sem folga nem nos finais de semana. só saía da quadra depois de acertar vinte cestas seguidas. No total, acho que dava umas oito horas diárias de treino. meus números, e minha taxa de acerto, foram fruto disso. As pessoas vinham me falar: ‘Poxa, Oscar, você nasceu para jogar basquete, não é mesmo?’. eu rebatia: “que bom. se tivesse nascido na época de Jesus Cristo, o que faria da vida?’”.
Imagine se tivesse nascido em tempo de computação acelerada, a computação a favorecer os enormes talentos, como Curry. Ele treina – como Oscar, mas talvez nem tanto quanto Oscar – debruçado em volumoso material estatístico, organizado pelos preparadores do Golden State Warriors, seu time, que ontem não conseguiu chegar aos playoffs das finais da NBA. Trabalhos acadêmicos deixam claro. Se 79% das bolas entram lindamente ao acertar o centro do alvo e a taxa de sucesso cai para 60,9% 10 centímetros à direita ou 62,8% à esquerda da mosca, que tal um esforço suplementar? Um pouquinho para cá, um pouquinho para lá, não faz diferença. “Mas quando você chega a 15 centímetros, é como cair de um penhasco”, disse John Carter, CEO da Noah Basketball, empresa de tecnologia de rastreamento de arremessos. Em outra conversa com VEJA, o próprio Oscar navegou pela excelência de Curry, herdeiro natural de suas qualidades. “O basquete é, em essência, um jogo geométrico, a começar pelo fato de que na cesta cabem exatamente duas bolas, lado a lado”, disse. “A repetição aumenta as chances de acerto, e não me surpreende que Curry faça isso, como eu fazia, mas sem tantos recursos”.
Fonte: veja.abril.com.br




