
Foi ruidoso, como um grito que não quer calar: ao deixar o gramado da Vila Belmiro depois da derrota do Santos para o Fluminense por 3 a 2, de virada, Neymar pôs as mãos nos ouvidos — o modo que encontrou, entre a provocação e o constrangimento, para não ouvir as vaias que recebia, parte dos santistas, parte dos tricolores, que riam: “Não vai pra Copa, não vai pra Copa”. Ele depois foi às redes sociais, ali onde mora, para responder com desfaçatez: “Chegou o dia que eu tenho de explicar uma coçada de orelha! Não tem ser humano que aguente”. Difícil é encontrar ser humano que tenha acreditado na explicação do camisa 10. O agressivo gesto é retrato do momento em que vivemos, porque Neymar, gênio precoce que explodiu em 2010, é, aos 34 anos, a cara do futebol brasileiro: um tanto desequilibrado, incomodado com a ausência de títulos de monta, em busca da personalidade perdida. Dito de outro modo: na cena de domingo, que ecoará por bom tempo, é como se Neymar — afinal, será ou não convocado pelo treinador Carlo Ancelotti na lista a ser anunciada em 18 de maio? — fizesse ouvidos moucos ao desinteresse dos brasileiros pelo que um dia foi o país do futebol.
Uma recente pesquisa feita pelo instituto Datafolha entre os dias 7 e 9 de abril, com 2 004 entrevistados, dá tonalidade precisa a uma impressão, a da canarinho desbotada, que anda pelos gramados e ecoa pelas arquibancadas, retrato da falta de interesse pela Copa do Mundo, que bate à porta: 54% das pessoas não têm especial apreço pelo torneio, em marca negativa recorde. A título de comparação: em 1994, ano do tetra, esse índice era de 20%; em 2002, tempo do penta, de 22% — de lá para cá, dá-lhe descer a ladeira. Apenas um terço dos entrevistados acredita no hexa em 2026. “A escassez de título tira o sorriso, mas não é tudo, porque já houve seca longa como a de agora, entre 1970 e 1994, e a torcida permaneceu viva”, diz Amir Somoggi, diretor da empresa de pesquisa e marketing esportivo Sports Value. “A dificuldade é a imagem da seleção na sociedade, ruim, atrelada a desmandos que vão muito além dos gramados.”
Tantos anos sem grandes conquistas — o ouro olímpico de 2016 foi uma exceção sem muito brilho — ajudam, sem dúvida, a explicar a frieza de emoções. Mas há um volumoso pacote de enroscos, entre períodos de evidente má gestão da Confederação Brasileira de Futebol, a CBF, e transformações geopolíticas e econômicas no mundo que, de alguma forma, ou de todas as formas, atingiram o esporte mais popular do mundo, pelas bandas de cá, e fizeram renascer o chamado complexo de vira-lata, que Nelson Rodrigues tinha enterrado em 1958, com a conquista inicial na Suécia.

No atual ciclo, depois da Copa de 2022, quando foi eliminada nas quartas de finais pela Croácia, a seleção teve quatro treinadores — o interino Ramon Menezes (1 vitória e 2 derrotas), Fernando Diniz (2 vitórias, 1 empate e 3 derrotas), Dorival Jr. (7 vitórias, 7 empates e 2 derrotas) e, atualmente, Ancelotti, o primeiro técnico estrangeiro do Brasil a caminho de um Mundial, pondo fim à gangorra de incertezas, em acordo conduzido pela gestão anterior, de Ednaldo Rodrigues. Vencedor na Champions League, inteligente ao montar equipes firmes na defesa e fortes no ataque, Ancelotti herdou uma herança torta, para finalmente entregar tranquilidade — longe ainda, porém, de conseguir montar um time que desembarque nos Estados Unidos como favorito.
Mas não há dúvida: em elenco de poucas estrelas — ainda que Vinicius Jr. tenha sido eleito o melhor do planeta há dois anos, o último brasileiro a receber a láurea — o italiano é o grande nome do elenco, ou, enfim, a grande esperança. “Há times superiores ao Brasil, mas Carlo sabe sempre tirar o melhor dos jogadores”, diz Fabio Capello, ex-comandante do Milan, do Juventus e do Real Madrid. “Imagino que consiga chegar até as semifinais.” O espetacular atacante Mbappé, que não é bobo nem nada, antes da vitória francesa em recente amistoso, por 2 a 1, foi direto ao ponto, instado a comentar o bom momento da França. “Não dá para ser favorito contra uma equipe que tem cinco estrelas na camisa, impossível”, disse.

Infelizmente, já não é assim, e o caminho desenhado até aqui não ajuda a ver o futuro com calma. Do ponto de vista do torcedor, diante da televisão, falta genuína conexão. Na última lista de convocados de Ancelotti, o torcedor brasileiro precisou procurar com lupa para encontrar alguém de seu time do coração. Apenas cinco jogadores atuam em campos brasileiros: o goleiro Hugo Souza, do Corinthians; os defensores Kaiki, do Cruzeiro, e Léo Pereira e Danilo, do Flamengo; além do meio-campista Danilo, do Botafogo. Mesmo assim, dificilmente os cinco serão titulares. É cada vez mais raro fisgar o fã brasileiro quando ele não consegue ver um jogador de seu clube vestindo a gloriosa amarelinha, a venerada azul. Parte do grupo de Ancelotti joga por ligas a que a maioria dos brasileiros nunca assistiu e provavelmente nunca vai assistir.
O meio-campista Fabinho defende o Al-Ittihad, da Arábia Saudita; o lateral Ibañez é do Al-Ahli, também saudita; enquanto o atacante Luiz Henrique atua no Zenit, da Rússia. São clubes populares em seus países, mas que não existem no imaginário do torcedor brasileiro. Ninguém acorda cedo para ver o Al-Ittihad jogar. Ninguém compra a camisa do Zenit. “Falta identificação com jogadores que saíram cedo demais do país”, diz Walter Casagrande Jr., que disputou a Copa de 1986. “Quase toda a seleção brasileira, à exceção do Estêvão e do Endrick, que fizeram sucesso no Palmeiras, foi formada no exterior.” Casagrande aponta um outro nó, que soa como sociologia barata, mas não é, de maneira alguma. “A ostentação de bens materiais, com carrões e festas, que os atletas de hoje fazem questão de exibir, os distancia da maioria do povo brasileiro. Não há mais a suposta proximidade de outras Copas, como nos anos 1970, 1980 e 1990”, afirma.

Durante décadas, o Brasil exportou craques prontos. Pelé só foi para o Cosmos de Nova York perto da aposentadoria, em 1975, depois de sempre vestir a camisa branca santista. Hoje o país exporta meninos, campeão em expatriar promessas (veja o quadro). Jogadores de 17 ou 18 anos saem antes de se tornarem ídolos locais, antes de aprenderem a decidir partidas grandes ou suportar a pressão de carregar um time nas costas. Muitos desaparecem em ligas secundárias da Europa, outros ficam presos em bancos de reservas, alguns simplesmente deixam de evoluir. O Brasil continua produzindo atletas em quantidade, sim, mas parece perder justamente aqueles craques raros, capazes de encantar e mudar o rumo de uma disputa sozinhos, com elegância e força.
Nos anos dourados, a seleção brasileira era uma extensão do futebol que o torcedor consumia no dia a dia. Os ídolos jogavam no Corinthians, no São Paulo, no Santos, no Vasco. Havia uma ligação emocional entre o clube e a seleção — quando a amarelinha entrava em campo, brotavam dois gritos de apoio, um pelo Brasil e outro pelo jogador de seu time, que ele via todo fim de semana e cujo nome ecoava no estádio. É página virada. Os melhores, insista-se, viajam cada vez mais cedo para a Europa — a exemplo de Vinicius Jr., que trocou o Flamengo pelo Real Madrid com 17 anos, e também, repita-se com insistência, dos já bem-sucedidos ex-palmeirenses Endrick, de 19 anos, no Lyon, e Estêvão, de 18 anos, no Chelsea, diagnosticado com uma lesão de demorada recuperação na coxa direita. Com esse movimento migratório, a seleção deixou de despertar aquela paixão visceral, aquele sentimento de que o país inteiro vai entrar em campo, 90 milhões e muito mais em ação.
O problema, sublinhe-se, vai além da seleção. Ele começa antes, no próprio futebol doméstico. Nos últimos sete anos, Flamengo e Palmeiras (e parabéns para as boas administrações e a força de atrair dinheiro) transformaram o Campeonato Brasileiro numa espécie de duopólio, como se fossem dois grandes predadores que fazem de tudo para eliminar qualquer ameaça ao seu domínio. Dos últimos dez títulos nacionais, os dois levaram sete. Antes disso, havia a sensação de que no Brasileirão tudo podia acontecer. Um time começava o campeonato desacreditado e, de repente, embalava. Um clube de folha salarial modesta superava um favorito. Até um jogo entre equipes do meio da tabela carregava algum mistério, porque o campeonato sempre reservava espaço para surpresas.

Essa prevalência de dois clubes sobre os demais, a bem da verdade, não é uma exclusividade nacional. A liga espanhola, uma das mais fortes do mundo, vive em torno da disputa entre Barcelona e Real Madrid, com raros períodos de exceção. A diferença é que os demais times de lá possuem boas condições financeiras e são capazes de investir, montando elencos interessantes e competitivos em campeonatos europeus. No Brasil, como a maioria tem um endividamento grande, um modo de atenuar o vermelho nas contas é vender para o Velho Continente os jovens talentos. Para piorar, quando a pressão da arquibancada aumenta em decorrência de maus resultados, muitos cartolas correm a mercados como o da própria Espanha para repatriar atletas veteranos, sem se importar com o custo. Resumo: o país se especializou em vender barato o que tem de melhor e comprar caro o que já não vale tanto. Esse tipo de mentalidade enfraquece os clubes, e, sem clubes fortes, dificilmente se forma uma seleção forte.
A canarinho também custa a se adaptar bem às mudanças que ocorreram dentro de campo. Organização tática e força física ganharam importância nas últimas décadas. No meio de campo, todos passaram a ter funções ofensivas e defensivas. Com isso, os clássicos camisas 10, aqueles craques que organizavam tudo, foram escasseando. O antigo meia, que podia caminhar em campo e decidir uma partida com dois passes geniais, praticamente desapareceu. Hoje, até o atleta mais talentoso precisa correr o tempo todo, pressionar, marcar lateral, fechar espaço, ao feitio daquilo que os treinadores pregam. É o oposto do estilo que consagrou a seleção brasileira no mundo.

O que o time nacional tem de melhor hoje são seus jovens atacantes, a grande esperança de um desempenho melhor na Copa de 2026. Como anotou Tostão, tricampeão do mundo em 1970, craque também nas letras: “Será que, contra as mais fortes seleções, a melhor solução seria o Brasil reconhecer suas limitações, marcar mais atrás, formar um time compacto e contra-atacar para aproveitar a velocidade dos atacantes e a marcação mais alta dos adversários? Assim jogava a seleção campeã do mundo em 1994, com dois atacantes velozes e talentosos (Romário e Bebeto). Na época, o jovem Ancelotti era auxiliar do treinador da equipe italiana”.
Da fragilidade em campo, de mãos dadas com a confusão promovida pelos cartolas, brotou um caldo de cultura para um outro passo a caminho do precipício: o sequestro, por assim dizer, da camisa amarela pela política, pelos apoiadores dos partidos de direita. O manto esportivo virou ícone ideológico, e ainda hoje provoca espanto a imagem dos golpistas de 8 de janeiro de 2023 vestidos maciçamente de amarelo. Tentativas de campanhas de marketing não salvaram a pátria de chuteiras.

É lamentável, embora não seja o fim do jogo. As Copas são quase sempre mágicas, criam e matam deuses, e por que não acreditar que o Brasil possa fazer frente a França ou Espanha? Pode, sim. Convém lembrar que, em 2002, Felipão, Ronaldos, Cafu e cia. embarcaram desacreditados, depois de perder até para Honduras — e o resto é história. Vale lembrar ainda que, na primeira conquista nacional, nos estádios da Suécia em 1958, o escrete saiu daqui sem expectativas, mesmo levando para a disputa Garrincha e um imberbe Pelé, ainda desconhecidos no exterior. Por outro lado, as expectativas em seleções tidas como favoritas, como as de 1982 e 2006, acabaram frustradas.
E então, agora, no sonho dos sonhos, seria possível apagar a mais forte imagem da seleção aos olhos do mundo: o desastre inominável do 7 a 1 contra a Alemanha, na Copa de 2014. Ainda hoje parecemos ouvir o zagueiro David Luiz, que naquela tarde de 8 de julho chorou diante das câmeras de televisão: “Peço desculpas a todo o povo brasileiro. Eu só queria dar uma alegria para o povo, para as pessoas que sofrem tanto”. E cabe um lembrete, em linha cujos nós são complicados de desatar: naquela jornada, os onze do Brasil entraram em campo segurando a camisa de Neymar, que se contundira contra a Colômbia, nas quartas, e não pôde jogar a semifinal. Foi como se a ausência de Neymar brandisse um “presente”. É assim, ainda, dada a insistência em taparem-se os ouvidos para os reais problemas. Uma partida de futebol não é o fim do mundo, uma Copa do Mundo não pode ser metáfora de guerra, mas um pouquinho de alegria reconquistada mal não fará. Que a canarinho se recupere do amarelo desbotado.
Publicado em VEJA de 24 de abril de 2026, edição nº 2992
Fonte: veja.abril.com.br




