
Os dirigentes da Fifa adoram celebrar um número: os 211 países filiados à federação internacional, mais do que os 193 estados que compõem a ONU. Agora em 2026, batem bumbo também para a maior Copa do Mundo da história, com 48 seleções, leque estendido que facilitou a participação de Cabo Verde e Curaçao, por exemplo, nações sem nenhuma tradição no esporte. Serão 39 dias de competição, entre 11 de junho e 19 de julho, ao redor de 104 partidas nos Estados Unidos, México e Canadá (no Catar, há quatro anos, foram 64). Tudo muito bonito. Celebre-se, pois, a globalização da bola, apesar do inchaço em nome dos dólares. Faltou, contudo, combinar com os russos… Ops, com os americanos e os iranianos.
Na quarta-feira 11, o ministro dos Esportes e Juventude do Irã, Ahmad Donyanali, pôs a bola na marca do pênalti e chutou: anunciou ser impossível participar da Copa, e não haveria outro caminho a não ser o boicote, como resposta aos ataques conjuntos dos Estados Unidos e Israel, em guerra sem fim nítido no horizonte. E o que era apenas uma possibilidade ganhou contorno real: e se os persas, classificados no Grupo G, de fato abandonarem o torneio? A Fifa não tem a resposta imediata, mas há algumas opções: a classificação direta do Iraque, que está na repescagem, ou então dos Emirados Árabes Unidos, terceiro colocado no grupo das eliminatórias. O detalhe: ambos os países são também alvos de disparos vindos de Teerã. Nos bastidores, caso o anúncio de ausência seja mera provocação, há quem defenda a transferência das partidas do Irã para o México. O desconforto: os jogos iniciais da fase de grupos, previstos para Los Angeles, contra Nova Zelândia e Bélgica, seriam disputados em clima incerto. Há naquela região cerca de 500 000 persas, que é conhecida como “Pequena Pérsia” ou “Teerangeles”. Como, então, garantir segurança?
A hipótese de cancelamento da Copa, que viralizou nas redes sociais, é bobagem. O presidente da Fifa, o italiano Gianni Infantino, e Donald Trump são agora amigos de infância — e não por acaso, o cartola concedeu ao republicano um prêmio da paz, em dezembro do ano passado. A láurea não vale nada, mas serve de símbolo para a aliança inquebrantável entre os dois. Não por acaso, alheios ao anúncio de repúdio do Irã, Infantino disse ter conversado com Trump para provocar: “O Irã será muito bem-vindo aos Estados Unidos”.

Haverá Copa, mas numa situação insólita: pela primeira vez um país-sede teria como “convidado” uma nação contra a qual troca tiros e bombas. Faltam ainda três meses, mas há um bode na sala e será difícil tirá-lo. Mas como saber em que clima andará o evento? Um bom atalho é olhar para um triste episódio da semana passada. As jogadoras da seleção feminina do Irã se recusaram a cantar o Hino Nacional antes de uma partida contra a Coreia do Sul, na Copa da Ásia, disputada na Austrália. Foram tratadas, em casa, como “traidoras de uma pátria em guerra”. Eliminadas na fase inicial, caíram numa armadilha. Como retornar ao país natal sem riscos? Trump, que não perde chance de palpitar, foi à rede social Truth Social com letras maiúsculas e prosódia muito peculiar reclamar com o premiê do país anfitrião: “A Austrália está cometendo um terrível erro humanitário ao permitir que a Seleção Nacional Feminina de Futebol do Irã seja forçada a retornar ao Irã, onde muito provavelmente serão mortas. Não faça isso, Sr. Primeiro-Ministro, conceda ASILO. Os EUA as acolherão se o senhor não o fizer”, escreveu. Cinco atletas conseguiram, enfim, permanecer na Oceania, transferidas do hotel para lugares seguros. Outras ainda tentavam solução idêntica até quinta-feira 12.
É impossível, destaque-se, ligar a bola de cristal sobre o que pode acontecer na Copa 2026 — mas é inegável que o caminho será feito de pedras. É improvável que se repita agora, dado o forfait iraniano, uma cena como a de 1998. Naquele ano, no Mundial da França, Irã e Estados Unidos se enfrentaram — com vitória da turma de Khamenei por 2 a 1. O que realmente comoveu foi a troca de flores entre as duas equipes antes de a bola rolar. É difícil que desponte tal postura, com o fogo ardente. E vale agora, mais do que nunca, a conhecida frase de um treinador da Itália, Arrigo Sacchi: “O futebol é a coisa mais importante entre as coisas sem importância”.
Publicado em VEJA de 13 de março de 2026, edição nº 2986
Fonte: veja.abril.com.br




