domingo, abril 26, 2026
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Gilmar Mendes vai à guerra

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BRASÍLIA – Na quinta-feira passada, o Ministro Gilmar Mendes deu uma entrevista de 28 minutos ao Jornal da Globo para um “tudo ou nada” na crise de credibilidade do Supremo.

E não parou por aí. No mesmo dia, o ministro foi a uma rede social e postou: “Há uma indústria de difamação e de acusações caluniosas contra o Supremo. Vou enfrentá-la.” 

Em um momento em que muitos membros da Corte se sentem acuados perante a avalanche de notícias que ligam o STF ao escândalo do Banco Master, Gilmar resolveu matar no peito, chamando para si a defesa do Supremo e devolvendo contrapontos e críticas a outras instituições como resposta.

Algumas vezes, o ministro centrou fogo na imprensa e na própria Rede Globo, deixando a repórter Renata Lo Prete em situação desconfortável. 

Atacando o Senador Alessandro Vieira (MDB-SE), o relator da CPI do Crime Organizado que pediu o indiciamento de ministros do STF, o ministro chamou sua conduta de “patética” e “covarde”, sugerindo que a CPI poderia estar sendo instrumentalizada pelo próprio crime organizado para produzir uma “cortina de fumaça”.

Defendeu as condutas dos colegas Alexandre de Moraes e José Antonio Dias Toffoli e disse que o inquérito das Fake News “continua útil” e “vai acabar quando terminar”.

Por fim, questionado sobre a baixa aprovação do STF nas pesquisas, sugeriu uma comparação da credibilidade do Supremo com a de outras instituições – incluindo a imprensa.

A ofensiva de Gilmar é uma manobra arriscada para o decano da Corte, o ministro que 24 anos depois de tomar posse é tido como o de maior influência em Brasília e o mais experiente em navegar crises institucionais.

Ao bater de frente com os críticos, o ministro arrisca inflamar ainda mais os ânimos contra o Supremo; mas, se for bem-sucedido, terá levado a defesa institucional a um novo nível, confirmando que é um misto de Highlander com Rasputin e Maquiavel.

Gilmar – que entre outras coisas já se notabilizou pela crítica contundente ao que considera os abusos da Lava Jato – desta vez tenta descascar um abacaxi muito maior, dado que a crise do Master foi depositada aos pés do Supremo pelas ligações de pelo menos dois de seus ministros com Daniel Vorcaro.

Na entrevista – em que Lo Prete embalou cada pergunta espinhosa com diplomacia suíça – Gilmar mandou vários recados. 

Disse que a crise do Master é “uma crise da Faria Lima” que a imprensa está tentando trazer para a Praça dos Três Poderes, em Brasília, em referência aos respingos do escândalo não só no Supremo, como também no Executivo e no Legislativo.

Ao endereçar conflitos de interesse, notou que diversos veículos receberam verba de publicidade do Master e aludiu ao fato de que Vorcaro foi o keynote speaker em um evento das Organizações Globo em Nova York.

“Agora, ter contato com Vorcaro virou algo satânico,” disse Gilmar. “Vamos olhar isso de uma forma crítica e madura! É preciso ter adultos na sala.”

Por fim, disse que qualquer reforma do Supremo será produto de autocrítica, mas que “autocrítica”, como o próprio nome já diz, “é crítica interna”, e que eventuais mudanças serão feitas internamente.  “Espero que a imprensa também faça sua autocrítica; a imprensa apoiou a Lava Jato, e não escutei depois uma autocrítica.”

Na cruzada que começou na semana passada, um alvo especial de Gilmar foi o ex-governador de Minas, Romeu Zema, que publicou um vídeo satírico no qual fantoches representavam Gilmar e Toffoli discutindo trocas de favores em meio ao escândalo do Master.

O ministro reagiu com uma notícia-crime enviada a Alexandre de Moraes, argumentando que a sátira ultrapassou o limite da crítica para se tornar caluniosa.

Daniel Vorcaro

Nas entrevistas ao longo da semana, Gilmar fez questão de dizer que Zema só conseguiu governar porque obteve liminares no STF que suspenderam o pagamento da dívida de Minas com a União.

“Quando o STF profere decisões que garantem o fluxo de caixa, a Corte é acessada como agente necessário. Contudo, basta que a Corte contrarie interesses políticos para que o pragmatismo jurídico dê lugar a ataques à honra,” bateu.

Falando à CNN Brasil, Gilmar foi além da esfera jurídica e partiu para o ad hominem: ironizou o sotaque mineiro de Zema, comparando-o a um “dialeto próximo do português” ou à “língua falada” em Timor-Leste (país asiático onde a Língua Portuguesa é corrente desde o século XVI). Fez, também, um comentário preconceituoso ao questionar como Zema reagiria se fosse retratado como homossexual – declaração pela qual se desculpou horas depois.

“Não tenho receio de reconhecer um erro. Errei quando citei a homossexualidade ao me referir ao que seria uma acusação injuriosa contra o ex-governador Romeu Zema. Desculpo-me pelo erro. E reitero o que está certo,” afirmou.

A estratégia de Gilmar é o que ele próprio denomina de “fuga para frente”. Em vez de se entrincheirar no silêncio, o decano tenta pautar o debate sob a ótica da estabilidade institucional – operando na intersecção entre a alta técnica jurídica e a alta política, e utilizando sua senioridade para atuar como o pára-raio da crise.

Para compreender a ofensiva, é imperativo retroceder aos corredores da Universidade de Münster. Foi lá que, sob a orientação de Hans-Uwe Erichsen, o aluno Gilmar Mendes absorveu a juristische Dogmatik (dogmática jurídica), uma doutrina que busca transformar o Direito em uma ciência sistemática e coerente, fundamentada na lógica e na abstração.

Essa formação não é apenas um detalhe acadêmico; constitui o núcleo duro que permite ao ministro justificar decisões contramajoritárias sob o manto de um rigor técnico inatacável. A doutrina alemã ensinada em Münster funciona como um filtro entre a pressão das ruas e a decisão judicial.

Diferentemente do pragmatismo americano, focado em precedentes, a escola alemã prioriza a segurança jurídica e a proteção de “núcleos essenciais” de direitos fundamentais que nem mesmo a vontade da maioria pode atingir.

Essa visão reage diretamente ao trauma do nacional-socialismo que reinou na Alemanha entre 1933 e 1945. Após a Segunda Guerra, os juristas alemães perceberam que a lógica pura da “lei é lei” (Gesetz ist Gesetz) permitiu as atrocidades cometidas pelos nazistas. A lógica era a seguinte: se o procedimento de criação da norma era seguido, ela era considerada válida, independentemente do seu conteúdo moral.

A resposta no pós-guerra foi a “rematerialização do Direito”, colocando valores como a dignidade humana no ápice do sistema, intocáveis até pelo legislador.

Enquanto o foco da doutrina alemã é na estrutura lógica da lei, o da doutrina predominante na França e nos EUA é na letra da lei ou em precedentes judiciais. Nas cortes desses dois países, os juízes têm maior liberdade para tomar decisões de acordo com o caso concreto. Isso torna os juízes intérpretes da vontade política e social de cada momento da história do País.

Na Alemanha pós-nazista, o sistema judicial se tornou altamente previsível e lógico. O cidadão sabe exatamente as consequências de seus atos. O arbítrio judicial foi minimizado. A nova doutrina desenvolveu a ideia de que os direitos fundamentais não valem apenas contra o Estado, mas também entre indivíduos (por exemplo: proteção contra demissões abusivas em empresas privadas, um expediente impensável nos EUA).

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No direito coletivo, de acordo com a doutrina alemã, o Estado não tem apenas o dever de “não intervir”, mas o dever positivo de agir para proteger direitos coletivos (como o meio ambiente ou a saúde pública), baseado no princípio da proporcionalidade, que divide a análise judicial em três passos: adequação, necessidade e proporcionalidade em sentido estrito. Fora da Alemanha, os países que mais incorporaram preceitos desta doutrina foram Japão, Coreia do Sul, Grécia, Portugal e, mais recentemente, o Brasil.

Gilmar transportou essas ferramentas para o cotidiano do Judiciário brasileiro. Ele é o principal responsável por consolidar o uso do princípio da proporcionalidade no STF, uma técnica que dá ao magistrado um poder enorme de “ajustar” a aplicação das leis, servindo como uma barreira contra o que ele chama de “populismo judicial”.

Na visão técnica de Münster, é preferível que um culpado responda em liberdade sob o devido processo do que permitir que o Estado se torne autoritário para puni-lo. É o garantismo elevado à categoria de ciência, o que gera o eterno descompasso entre suas decisões e o desejo social por justiça imediata. A doutrina pretende ser uma espécie de antídoto ao arbítrio e ao populismo.

Na atuação de Gilmar no STF, esse instrumental serviu de base para limitar excessos do Estado, especialmente no campo penal, em prisões preventivas e medidas cautelares de natureza restritiva. Em 2018 e 2019, ele foi um dos ministros que mais concederam habeas corpus no STF, com 478 decisões favoráveis a investigados e acusados, tornando-se figura central do que parte da doutrina chama de “virada garantista” do tribunal.

Entre as decisões mais significativas dessa fase estão a relativização das prisões preventivas em série na Operação Lava Jato; a extensão da declaração de suspeição do ex-juiz Sérgio Moro a outras ações penais contra o Presidente Lula; a anulação de condenações de José Dirceu; e a determinação da soltura do empresário Eike Batista em 2017, sob fundamento de que a gravidade das acusações não justificaria, por si, a manutenção da prisão cautelar.

Em todos os casos, Gilmar valeu-se de uma argumentação centrada na presunção de inocência, na proporcionalidade, e na necessidade de fundamentação concreta da medida restritiva. “A defesa das garantias fundamentais não é um privilégio do réu, mas um imperativo do Estado Democrático de Direito,” ele argumenta.

Num mundo distópico, dominado pela polarização política extrema e pelas redes sociais, onde fatos históricos são negados e a verdade é manipulada de acordo com os interesses de cada grupo, a legitimidade dessa doutrina jurídica é amplamente questionada. Ao longo de sua carreira, Gilmar foi acusado inúmeras vezes de favorecer criminosos do colarinho branco e cidadãos com poder econômico.

As críticas à atuação do ministro são de três naturezas. A primeira é o uso extensivo de decisões individuais (monocráticas) para soltar réus ou suspender processos. Isso cria a sensação de que ele age por vontade própria, e não como parte de um colegiado.

Críticos apontam, também, que o rigor garantista do ministro é aplicado com muito mais frequência em casos envolvendo figuras da elite política e econômica do que em situações de cidadãos comuns, o que gera a acusação de uso político da técnica jurídica. Por fim, Gilmar é criticado por fazer “contorcionismo jurídico” para chegar a um resultado que favoreça determinado grupo ou cidadão.

O ministro sempre reagiu a todas as críticas, mas jamais se deixou abalar a ponto de mudar suas posições baseadas na doutrina alemã. Ele utiliza o que aprendeu em Münster como barreira contra a “Justiça pautada pela opinião pública”, e frequentemente critica o que chama de “direito penal do inimigo” (quando se retiram garantias de alguém por ele ser considerado um “mal social”).

O paradoxo é que, ao usar uma doutrina desenhada para proteger o cidadão contra o Estado autoritário (o trauma nazista), Gilmar muitas vezes acaba protegendo indivíduos poderosos contra a sanção de um Estado que tenta punir a corrupção. Isso coloca a “Doutrina de Münster” no centro de um cabo de guerra entre o “garantismo técnico” e o “desejo social por justiça e moralidade”.

O rigor metodológico de Münster transforma garantias abstratas em impedimentos técnicos reais à atuação do Estado. Para os juristas que seguem essa doutrina, um erro processual (como uma prova colhida ilegalmente) é mais grave para a democracia do que a soltura de um culpado. Para a sociedade, o foco é o resultado (o crime). 

Gilmar se vê como um cientista que aplica os ensinamentos de Robert Alexy, o filósofo alemão e teórico do princípio da proporcionalidade que chegou a criar uma fórmula matemática para a aplicação dessa teoria. Quando essa “fórmula” beneficia alguém odiado pela opinião pública, a técnica é vista como um pretexto para a impunidade.

A sofisticação alemã permite que se mude de opinião conforme a evolução do sistema. O que a doutrina chama de “evolução interpretativa”, a opinião pública chama de “casuísmo”.

A trajetória de Gilmar no STF prova que ele opera na intersecção entre a alta técnica jurídica e a sobrevivência institucional. Como decano, ele assumiu a responsabilidade de ser o para-choque das crises, articulando um novo “Pacto Republicano” com Lula e as cúpulas do Congresso.

Sua defesa da Corte é, em última análise, a de um sistema de poder do qual ele é o principal arquiteto. Seus ataques a Zema, sua proposta de lei anti-embargo contra os EUA e sua autópsia da Lava Jato formam um conjunto coerente de ações destinadas a reafirmar que o Judiciário brasileiro não deve ser um espelho da sociedade, e sim o guardião das regras do jogo.

Gilmar vai à guerra porque acredita que, sem o STF como árbitro final e tecnicamente isolado das paixões populares, a democracia colapsaria sob o peso de suas próprias disfuncionalidades. Ao fim de seu decanato, ele deve deixar um tribunal profundamente transformado por suas teses e capacidade de articulação, provando que o Direito, em Brasília, é tanto ciência quanto a arte de governabilidade.

Mas um Senado mais conservador, eleito este ano, pode colocar este legado em risco.




Cristiano Romero




Fonte: braziljournal.com